quinta-feira, 19 de maio de 2011

Matéria e Entrevista feitos pela Cooperativa Paulista de Teatro!

Atuante nos bairros da zona sul de São Paulo mais afastados do centro, a Trupe Artemanha, que completa 15 anos em 2011, realiza um sonho ao lançar, com apoio da 18ª edição do Fomento Municipal ao Teatro em São Paulo, a Escola Popular de Teatro – CITA (Centro de Investigação Teatral Artemanha), com ensino gratuito.
O curso, criado após longa pesquisa do coletivo junto a Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e o Ói Nóis Aqui Traveiz, terá inicialmente 16 vagas e está com inscrições, até 7 de maio (prorrogadas até dia 10), abertas. As aulas se relacionam com as pesquisas do grupo, que perpassam a dança, a história brasileira, as culturas popular e periférica e a relação com a cidade. Serão ministradas no bairro de Campo Limpo (saiba como se inscrever).
A CPT conversou, por e-mail, com Luciano Santiago, um dos integrantes da Trupe para saber mais sobre a iniciativa.
CPT: Poderiam contar um pouco da história do grupo?
Luciano Santiago: A Trupe Artemanha vem desenvolvendo seu projeto artístico desde 1996, realizando importante movimento teatral na zona sul de São Paulo, com apresentações de espetáculos, organização de mostras, palestras e oficinas abertas ao público em geral, aos artistas e aos estudantes.
O grupo procura trazer para cena temas que dialoguem com elementos circenses, danças dramáticas e ritmos populares, com o principal objetivo de apresentar espetáculos que provoquem exercícios de reflexão e discussão social. Neste contexto o processo de construção dos espetáculos do Artemanha se aproxima de acontecimentos históricos expressivos e do contato com elementos componentes da Metrópole de São Paulo. Por meio do diálogo com grupos sociais localizados na periferia e da análise dos diferentes usos que estes grupos imprimem ao espaço urbano, seja para a circulação ou para a ocupação cotidiana, estes elementos revelam-se como argumentos para o desenvolvimento da pesquisa estética do grupo.
CPT: Como nasceu a ideia de criar a Escola Popular de Teatro?
Santiago:
 A Trupe Artemanha já realizava oficinas livres. O grupo tem buscado ampliar essa experiência pedagógica, inclusive visitando e buscando aspectos similares em importantes escolas de formação teatral como a Escola Livre de Teatro de Santo André. A Escola CITA surge baseada nesse intercâmbio com o Ói Nóis Aqui Traveiz e na trajetória do grupo de adquirir vivência a partir das experiências de oficinas livres, das pesquisas realizadas e de treinamentos que sempre fizeram parte dos projetos propostos pelo grupo para editais públicos.
Acreditamos que este seja um dos principais projetos em seus 15 anos, capaz de sustentar e aliar o pensamento reflexivo, o potencial artístico e a continuidade das ações na região que o grupo desenvolve. Criando assim, um bloco que envolva outros segmentos culturais, estimule o surgimento de novos grupos teatrais e contribua para a difusão do teatro-político de resistência entre os moradores dos bairros da cidade de São Paulo.
CPT: Como foi composta a grade curricular e qual o objetivo do grupo ao construí-la nesse formato?
Santiago: A programação das aulas foi debatida exaustivamente dentro do grupo. Realizamos consultas com professores, pesquisadores que vivenciam e ajudam nos diversos processos de formação autoral, como o professor Antônio Rogério Toscano, que foi coordenador da Escola Livre de Teatro de Santo André, Tania Farias do  Ói Nóis Aqui Traveiz, Tiche Viana (Barracão Teatro), Renato Ferracini (Teatro Lume) e o professor Alexandre Mate.
A partir destas proposições, que foram aliadas à necessidade de jovens artistas da região de atuação em grupo, chegou-se a um processo intensivo de treinamentos que reúne diversos elementos de estudos para o teatro popular: Danças Dramáticas Brasileiras, Musicalização com diferentes instrumentos musicais, o circo, a interpretação partindo da máscara neutra e expressiva, da teoria e estética teatral grotesca.
Todos os elementos serão direcionados para formação do ator-pesquisador em Teatro Popular, que tomará contato, por exemplo, com as Danças Dramáticas Brasileiras, tendo como proposta investigar minuciosamente a mecânica da dança, do pulso e do ritmo, evoluções coreográficas e de suas diferentes qualidades de energia. Trabalhando com o estudo do Cavalo Marinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco, o Batuque Paulista-SP, o Samba de Parelha de Mussuca-SE e o Frevo-PE, treinamentos que serão ministrados por Alício Amaral e Juliana Pardo.
CPT: Qual é a ponte que a escola faz com o Hip Hop, uma vez que ensinamentos sobre esta cultura também estão inclusos na grade?
Santiago:
 Mais importante do que falar de um projeto artístico, é preciso comentar sobre a resistência que vem acontecendo em bairros da periferia de São Paulo, com coletivos teatrais que desenvolvem trabalhos de provocação política, em regiões bastante afastadas do grande centro financeiro e de mandonismo. A Trupe Artemanha, também mergulhada nessa realidade, propõe o Núcleo de Pesquisa Hip Hop dentro da programação de aulas da Escola-CITA.
O grupo sempre viveu próximo ao movimento Hip Hop, que se desenvolveu principalmente no bairro Capão Redondo, criando motivação extra para propor o Núcleo, possibilitando dialogar ainda mais com a dança de rua, com os squashes das pickup’s dos DJs, com os microfones afiados dos MCs e na plástica do Grafite, elementos totalmente caracterizados como arte popular urbana. Além de trazer nas letras do Rap uma contestação política, o Hip hop está entre os fenômenos culturais que mais interessam ao grupo, tendo ligação com o novo projeto de pesquisa da Trupe Artemanha que é de estudar o Bairro do Capão Redondo, que em 2012 completará 100 anos.
CPT: A ideia é ser um curso profissionalizante?
Santiago:
 A Escola-CITA não terá característica de formação profissionalizante, se perpetuará com métodos de pesquisas experimentais, buscando espaço para trocas artísticas e políticas, uma escola-mutirão que será construída por todos os envolvidos.
A pedagogia da escola, também será criada a partir de reuniões, debates e vivências entre mestres e aprendizes, relacionando os elementos estéticos com a formação específica de cada turma. Isso significa que a escola já nasce com essa necessidade de continuar existindo como Centro de Referência e Pesquisa Teatral, por diversas questões que ultrapassam valores de investimentos financeiros.
O Núcleo Artístico da Trupe Artemanha continuará pesquisando e entrando em contato com Escolas que se aproximam da Pedagogia da Autonomia e do Processo de Gestão Coletiva, promovendo intercâmbios com mestres, pesquisadores e grupos que mantém escolas de formação semelhantes à proposta da Escola-CITA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário